Ed's so called life

Forget about that "Dear Diary" shit.

31.1.05


A Vendedora de livros


Eu a odiava, com aquele olhar ao mesmo tempo debochado e lascivo. Seria muito simples. Ela falaria ?boa tarde?, pegaria o livro de minha mão, diria o preço, receberia, daria o troco, agradeceria e pronto.


Mas não. Ela não disse nada. Só me olhou, com aquele sorriso monalísico. Eu tinha percebido isso na minha primeira ida àquela livraria. Intimidava -me, parecia saber disso, e fixava mais ainda o olhar. Mesmo agora a odeio, pois não consigo lembrar um sinônimo para olhar. Por que quem olha não simplesmente vê. ?Te vi naquele lugar? é diferente de ?Olhei para você?.


Lembro-me de Capitu, de seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada. E para isso, ela teria que ter olhos castanho-escuros, mas bem escuros, por não haver olhos negros, caso contrário seria essa a cor.


Mas nada disso adianta. Tentei subir a rua lendo o livro que acabara de comprar, mas só conseguia pensar na maldita vendedora de livros. Seu olhar fixo e debochado. O cabelo preso, a testa lisa, o jeito de atender com descaso, passando direto e depois voltando. As poucas palavras que nada significaram. Não lembro de sua voz. Eu a odeio. Ou talvez esteja apaixonado.
E.Gomes Jr.

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